domingo, 28 de dezembro de 2014

O Brasil não é apenas o litoral - Um olhar estrangeiro em seu próprio país



Nas análises de grandes nomes intelectuais brasileiros, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, o foco é dado às regiões litorâneas e Minas. O tratamento dado ao sertão é mínimo, e sempre em uma perspectiva "estrangeira" em sua própria terra.
O isolamento de nossa região é talvez a principal causa disso.É possível exemplificar, citando, por exemplo Saint Hillaire, que ao passar no posto fiscal na divisa entre Minas e Goiás em 1819(viajando entre Paracatu/MG e Santa Luzia, atual Luziania), notou ao assinar o livro registro que fazia vários meses que ninguem entrava no estado de Goiás por lá(e ele contabilizou apenas 4 estradas entrando em Goiás naquela época).Von den Steinen, durante sua viagem a Cuiabá em 1884 percebeu que os funcionários públicos enviados para Mato Grosso o eram por motivos punitivos (na suas palavras, Mato Grosso era a Sibéria Brasileira). Não muito antes, na década de 1860, Couto de Magalhães mostrava em seus estudoso isolamento goiano, que ele tentou remediar com a navegação no Araguaia (tal pionerismo foi fundamental para que, 70 anos depois, a lancha Gazita fizesse a linha Belém do Para- Baliza via Araguaia/Tocantins, possibilitando um fluxo migratório e comercal razoável a nossa região).
Este isolamento levou a criação de características peculiares, não compartilhadas com outras regiões brasileiras.Exemplificando, enquanto os supracitados autores trabalham muito na influencia da escravidão na sociedade e história brasileira, em Goiás e Mato Grosso a importância do elemento indígena é muito maior.Não que as relações de escravidão fossem inexistentes em nossa região.Corrobando a presença de escravos,  existe registro de um assassinato de escravo por indios Bororo naquele que considero o núcleo populacional "mãe" de nossa região, Torres do Rio Bonito (hoje Caiapônia) na metade do século XIX. Entretanto o aspecto de subsistencia e autárquico que a economia do interior goiano exibia em meados do século XIX impedia que a presença do elemento escravo fosse dominante aqui como foi no litoral.
Darcy Ribeiro, por outro lado, foi sagaz ao notar a existencia de vários "Brasis" dentro de nosso próprio país. Todavia ainda é necessário reescrever nossa história, abandonando a perspectiva "litorânea" e adotando uma que leve em conta a importancia da(s) história(s) regionais e que não seja etno-centrica, entendendo também o papel do elemento indígena e negro, a partir de suas próprias visões, da construção dessa abstração chamada Brasil.

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