sábado, 7 de maio de 2016

Sobre meu método de estudo II: First things first

Antes de tratar do tema deste texto, devo fazer um breve adendo, de ordem epistemológica: Nós, enquanto seres limitados que somos, temos tendência a certos víeses cognitivos que prejudicam a adequada percepção da realidade.

Com efeito, evitarei fazer referências a autores ou livros neste artigo, visto que isso me obrigaria a realizar um dispendioso trabalho de fact checking que não quero  - e nem preciso - fazer no momento. Contudo, trabalharei algumas noções amplamente discutidas no âmbito da epistemologia e das ciências cognitivas.

Dito isso, é imprescindível aludir ao viés da confirmação. Tal fenômeno, em suma, consiste na tendência humana  de interpretar e pesquisar coisas de maneira a reforçar crenças pré-estabelecidas.
Assim, eu, ao tentar organizar e disponibilizar a quem quer que seja o resultado de alguns anos de leitura sobre aprendizado, invariavelmente estarei:
  1. Ignorando evidências em sentido contrário. 
  2. Dando valor a minha experiencia pessoal que não necessariamente é adequada a outras pessoas em outros contextos.
  3.   Ignorando um oceano de assuntos pertinentes ao tema que sequer li.


Este exercício de autocrítica, veja bem, não é apenas uma inútil confissão da limitação dos assuntos aqui tratados – afinal, qualquer um com bom senso sabe que ninguém sabe tudo e todos estão sujeitos ao erro. Pelo contrário, apenas peço àqueles que lerem este e outros textos que aqui publicarei que mantenham uma postura cética em relação àquilo que escrevo. Ainda, se possível, testem empiricamente, afinal, nada supera a experiência própria.


Por fim, me perdoem, mas esperar fórmulas mágicas de estudo e bibliográficas certeiras é muito wishful thinking, e, novamente, com todas as vênias possíveis, abandonar tais pretensões desde logo é uma boa maneira de evitar frustrações futuras.

***

Superado este breve, mas necessário, prólogo, passo agora ao tema  principal deste texto: o problema da fixação.

A fixação de conteúdo à longo prazo é provavelmente o pior e mais negligenciado desafio imposto aos estudantes de Direito. Muito embora a estrutura curricular dos cursos crie a impressão de progressão de conhecimento, na verdade o que ocorre é um constante ciclo vicioso de aprendizado-desuso-esquecimento de todas as matérias ministradas na graduação.

O remédio usual, geralmente feito às vésperas da OAB, é tentar re-aprender tudo (sob o rótulo errôneo de “revisar o conteúdo”). Nesta tarefa, quem tem uma memória inerentemente melhor ou de fato estudou durante os anos da graduação – criando inúmeros “gatilhos” de memórias de conteúdos antigos – sai na frente.

Via de regra, este é o caminho percorrido por todos aqueles que fazem uma graduação em direito. Mas, e se houvesse uma outra via? E se fosse possível, simplesmente, manter vivas na cabeça as matérias estudadas ao longo de anos?


***
Emil Krebs nasceu na Silésia - região então pertencente à Alemanha, mas que hoje localiza-se na Polônia - filho de um carpinteiro. Seu interesse por línguas o tornou fluente em mais de dez delas até o fim de sua graduação em Direito, na Universidade de Berlim.
Naquela ocasião, Krebs optou pela carreira mais adequada a poliglotas como ele: a diplomacia.

Com efeito, quando de seu ingresso no corpo diplomático alemão, reza a lenda que ele foi questionado sobre que línguas estrangeiras ele conhecia. Após uma resposta cética do examinador, que simplesmente não acreditou na capacidade de Krebs, ele supostamente afirmou: "Quero aprender a língua mais difícil ensinada aqui".

Deste modo, em 1887 Emil Krebs iniciou seus estudos em Mandarim, língua oficial do então decadente império Chinês. O seu êxito no aprendizado naquela língua levou-o a trabalhar nas representações alemãs nas  cidades de Tsingtao e Pequim, entre 1893 e 1917. Além disso, como se verá, o  seu conhecimento aprofundado em Mandarim o levou muito além.

Emil Krebs. 
Fonte: wikimedia. Imagem em domínio público.

A China da época era governada por uma eminência parda, a imperatriz viúva Dogwager Cixi, embora o imperador fosse Guangxu, seu sobrinho. Não obstante ter ascendido ao poder como concubina, Cixi era uma pessoa extremamente culta e, efetivamente, era quem dava as cartas na China no final do século XIX.

Ao ler as mensagens da representação alemã em seu país, Cixi simplemente não acreditava que elas pudessem ter sido escritas por um estrangeiro. Afinal, mandarim é uma língua complexa e mesmo aqueles europeus que viviam muito tempo no país não conseguiriam fazer um uso tão bom daquela língua em nível formal. Esses alemães são muito espertos – provavelmente ela pensou – contrataram algum intelectual chinês para redigir as mensagens a mim endereçadas  e querem me enganar.

Não obstante, prevendo um vexame, a imperatriz Dogwager Cixi convidou o distinto diplomata que supostamente escrevera tais mensagens, Emil Krebs, para um chá. Na ocasião, impressionou-se. Além de realmente falar Mandarim melhor que qualquer outro estrangeiro que já vira, Krebs também falava fluentemente Manchu – lingua original da dinastia de Cixi e pouco conhecida até mesmo pelos chineses da corte – além de mongol e tibetano.

Assim – quem diria – através do excêntrico Krebs o Império Alemão ganhou uma via direta de contato com a imperatriz Dogwager Cixi, extremamente refratária a estrangeiros.

***

Como dito anteriormente, a fixação de conhecimento a longo prazo é um problema crucial para aqueles que desejam dominar uma quantidade razoável de conhecimento jurídico. Afinal, usualmente pressupõe-se que o conhecimento é adquirido, fixado em uma progressão contínua.  Se esqueceu do conteúdo? Provavelmente não estudou direito – dizem – ou apenas decorou a matéria.

Todavia, tal concepção é errônea desde seu início. Ela toma por base um postulado ad hoc acerca de um possível comportamento de nossa mente para justificar a adoção de um método pedagógico. Além do emprego de tais postulados ser complicado no plano genérico – afinal, axiomas são acientíficos  e, em regra, prejudiciais a qualquer análise adequada da realidade – no plano individual denota-se que a hipótese  objeto daquele postulado já foi falseada por pesquisas acerca do funcionamento da memória e do próprio cérebro, como um todo. 

Dito isso, é importante ressaltar que nossa memória – como todo o universo – é impermanente.  Apesar de termos uma ilusão de continuidade, nossa mente está em um fluxo contínuo de lembranças e esquecimentos. Logo, é inviável conceber um método de estudos a longo prazo que ignore  tal característica inerente à própria existência humana.

A condição humana tem seus limites...
Fonte: wikimedia.

Com efeito, num plano geral a luta contra a impermanência é frívola. Há no Tibet a tradição de construção de belíssimas mandalas de areia, de confecção extremamente difícil e delicada, que são em seguida destruídas. Tal exercício busca interiorizar a noção de impermanência de tudo – beleza, conhecimento, e, por que não, até a propria existência. A seguir, um esclarecedor vídeo da construção e destruição destas mandalas:


Logo, percebe-se que, no longo prazo, todas nossas memórias provavelmente serão perdidas – quer pela morte, quer por doença, quer por mero esquecimento. Portanto, qualquer esforço neste sentido será inútil. A única pretensão cabível, em vista disso, é tentar mantê-las de maneira significativa durante um lapso temporal razoável, que nos permita utilizá-las na consecução de nossos objetivos.

Neste ponto, faz-se necessário voltar à narrativa biográfica de Emil Krebs.

***
Ao longo de sua carreira, sempre mal pago, Krebs permaneceu na China. É inegável que a tal permanência poderia dificultar o seu estudo de outras línguas, o que, contudo não aconteceu. Krebs, por boa parte de sua vida, manteve o hábito de estudar línguas de madrugada de maneira cíclica. No livro Babel no More (1ª ed.), Michael Erard narra a rotina de estudos de Krebs (tradução minha):

Como Alexander Arguelles, Krebs revisava suas línguas em um ciclo: num rigoroso calendário, atribuiu turco na segunda-feira, chinês na terça, Grego na quarta, e assim por diante. Com um livro na mão, ele dava voltas em torno da mesa da sala de jantar da meia noite às quatro da manhã, nu, fumando um charuto, bêbado de cerveja alemã. Sua biblioteca foi organizada por línguas e  grupos linguísticos Para cada livro que ele escreveu um resumo, que ele revisava regularmente.(p.164) 

***

Inicialmente, denota-se que, mesmo com um inquestionável dom natural, Emil Krebs tinha uma característica marcante em seu método: contato constante com diferentes línguas.

É possível questionar qual a aplicabilidade disso no estudo jurídico.
A resposta é sucinta: a fixação de conhecimento a longo prazo exige o contato constante com aquilo que se estudou, independentemente da natureza do objeto de estudo.

Danse macabre foi uma alegoria muito comum em iluminuras medievais feitas no século XV.
Fonte: wikimedia. Imagem em domínio público.


Como já dito, há  em nossa mente um constante fluxo de lembranças e esquecimentos. Neste contexto, há um ônus na manutenção de cada fração de conhecimento em nossa mente, consistente na necessidade de revisões e reestudos, sob pena de esquecimento.

Não obstante, isso não implica na obrigatoriedade de contato permanente com um dado conteúdo. Pelo contrário – provavelmente dissertarei sobre isso em outro texto – a revisão frequente dificulta a fixação de conteúdo a longo prazo. Com efeito, repito, apenas busca-se aqui evidenciar a existência de um ônus inerente a cada fração de conhecimento armazenado em nossas mentes, consistente na manutenção daquilo que já foi estudado, sob pena de esquecimento.

Em síntese, não revisar, ou não estar em contato constante com dada matéria, faz com que o estudante haja como Sísifo, que segundo a mitologia grega, foi condenado pelos deuses a empurrar uma bola de mármore montanha acima, apenas para vê-la descer, em seguida, montanha abaixo, em um eterno esforço fadado ao fracasso.

O pintor renascentista Ticiano retratou Sísifo em uma de suas obras.
Fonte: wikimedia. Imagem em domínio público.


Assim, resta claro que qualquer método com pretensão mínima de efetividade deve lidar com este ônus temporal e outro, de custo de oportunidade (tratarei dele em outro texto). Não há receita de bolo aqui.

Eu criei meu próprio método de fixação inicial de conhecimento (via active recall) e revisão (via repetições espaçadas). Ele funciona razoavelmente bem, motivo pelo qual tratarei mais dele em outros textos.

Todavia, entendo que, independentemente de método, é preciso adotar um mindset que leve em consideração os seguintes fatos:

1 – Tudo é impermanente.
2 – As memórias são impermantentes.
3 – Por conseguinte, há um ônus na manutenção de memórias no longo prazo.
4 – Negligenciar este ônus invariavelmente leva ao esquecimento daquilo que foi estudado.
5 – Existem métodos distintos para a administração deste ônus, com eficácias variadas.
6 – Estudar e não revisar é perda de tempo.
7 – A prioridade deve ser a revisão, e não o estudo de novos assuntos.

Em linhas gerais, a revisão é essencial a qualquer método de estudo que pretenda proporcionar a assimilação e retenção de conhecimento a longo prazo.